domingo, 11 de maio de 2008

O belo dentro da fera

Há um mês eu escrevi, e um mês depois eu volto, para pensar sobre nós, sobre eu, sobre o que sou no íntimo. Vejo-me por fora, pela imagem distorcida e limitada que o espelho me fornece. Sinto-me por dentro, por uma compreensão ainda parca, fruto de um coração e uma mente em conflito, cuja maturidade ainda não alcançada, impede o pássaro de sorver o mel das grandes alturas e dos grandes vôos.

O belo, oculto em sua essência, tal qual o ouro que se esconde no rio, misturado ao barro a ser mexido, revolvido para que seja possível o seu brilho, que reluz, que se mostra, capaz de iluminar e brilhar os olhos mais incrédulos da beleza infinita que nos cerca. Conduzimo-nos, no mais frequente do dia a dia, a redutos de solidão externa e interna, fazendo-nos dormir, transformando-nos em zumbis de um mundo que não nos conhece, do ser que não sabemos que somos.

A fera, que deixamos à tona, essa parte ainda bruta de nós mesmos, que por instinto se faz forte, dominante da nossa ingenuidade diante do eu, diante do que talvez um dia possamos ser mas que ainda nos parece distante. Essa nossa essência original, semente de toda a maravilha, pedra bruta a ser lapidada, para que se torne possível a construção de jóias humanas.

Somos assim, aversos ao melhor que podemos ser, por incompreensíveis e incompreendidos, tornados frios e quentes, com a chave na mão, diante da única porta que nós leva a nós mesmos: o eu. E para sermos mais, para nos tornarmos o que nos povoa os sonhos, as metas que julgamos distantes, faz-se presente o belo, dentro da fera ainda exposta, gritando por liberdade.

Um dia talvez entendamos, e com certeza este dia chegará, porque tudo evolui, tudo cresce, tudo gera frutos. E assim, aos poucos o belo domina a fera, que se amansa, tornando-se doce, e bela, numa mistura do que fomos e do que nos tornamos, deixando ao redor o perfume da essência humana, que se descobre natural, naturalmente perfeita, na amplitude que a perfeição se permite revelar.

O belo, dentro da fera, aguarda oculto o momento de sua libertação, cabendo a nós, livre arbitrários de nosso próprio destino, permitir que as flores do auto-conhecimento se permitam desabroxar, amplificadas pela harmonia dos amores, sejam eles compreensíveis ou não aos olhos do gentio.

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