quinta-feira, 6 de março de 2008

Sonhos

Pensei em escrever sobre nossos sonhos, anseios, desejos, mas, sei lá por qual motivo, lembrei-me de quando era criança, do quão gostosos eram aqueles sonhos de padaria; recheio de doce de leite, goiabada e tantos outros. Fugi um pouco do objetivo na primeira frase mas, isto nos serve para entendermos o quanto todas as coisas, das mais simples às mais complexas, estão e são interligadas.

O que são sonhos? Vou permitir-me um conceito próprio, livre de qualquer interpretação ou pesquisa externa. Afinal de contas, aqui sou o criador, então, porque não criar? Desde já deixo livre sua aceitação, mas antes que as críticas venham, que sejam elaboradas novas definições. Cada uma vai ser única e individual mesmo, e este é o objetivo.

Sonho é algo interior, íntimo e individual. Um desejo parcialmente realizado de conseguir algo, de se chegar a determinado objetivo, de sentí-lo em sua plenitude, e dar-se por satisfeito. Algo que move o ser para novas realizações, tendo como finalidade única a satisfação de um desejo pessoal.

Bom, vou explicar meus motivos. Primeiramente, sonhos não podem ser compartilhados, por mais que se tente dizer o contrário e mesmo que se encontrem exemplos na História. Podemos citar a liberdade como exemplo, porque o conceito de ser livre reside no interior de cada um. Para alguns, ser livre é ter muito dinheiro para se comprar o que se quiser, enquanto para mim isto seria uma escravidão monetária.

Além disto, o sonho é sim algo já parcialmente conquistado, pela simples sensação de que nós temos de que ele nos pertence. Falta colocá-lo em prática, torná-lo material, mas em nosso íntimo já o usufruímos, conseguímos fazer planos mentais de sua utilização. Justamente por isto, digo ser o sonho um motivador, uma mola propulsora de ações e, aqui, reside um senso comum.

"Não deixe morrer seus sonhos", é o que dizem. Mate seus sonhos e não passará de matéria, é o que eu colocaria. Hoje apenas somos, às vezes sozinhos, outras tantas vezes em grupo, mas ignorar o que nos vai no íntimo, como realizações adormecidas, implorando o despertar, é a mesma coisa que virar as costas para nós mesmos. Não faço referência exclusiva a dinheiro, casa, carros, roupas ou um emprego dos sonhos. Sinta-se e perceberá que os sonhos são muito mais que isto.

Em sua grande parte, sonhamos felicidade, o que não pode ser alcançado pela matéria apenas, sendo esta um subsídio necessário, pelo mundo em que estamos. Um sonho é um estado de espírito, possível apenas por nos permitirmos, em determinados momentos, sentir. E volto à História, porque muitos sonhos tentaram ser compartilhados, em vão. Não somos iguais e nunca seremos, este é o belo! Liberdade, igualdade, fraternidade, mesmo quando entendermos esses termos e ações em sua plenitude, filosoficamente, religiosamente, e tantos outros mente, nunca serão sentidos e esperados da mesma forma.

Nascemos únicos, indivíduos em formação e desenvolvimento contínuo. Sonhamos únicos, por mais polêmica que isto gere, e precisamos aprender, isto sim, a miscigenar nossos sonhos de forma colaborativa, para que o meu não se sobreponha ao seu, mas o respeite. Assim, quem sabe um dia, os sonhos de igualdade, fraternidade e, principalmente, de um amor em sua plenitude, poderão ser alcançados por todos, de acordo com a compreensão e a realização interior que compentem a cada um de nós. Até lá, sonhe, sinta, e, porque não, delicie-se com seus sonhos mesmo parcialmente, tal qual nos permitíamos na nossa infância.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Caixas

Nossa vida é feita de caixas, por mais esdrúxulo que isto possa parecer. Mas posso ser mais claro do que isto, para que fique compreensível, bem ao gosto popular. Colecionamos situações, sentimentos, lembranças e coisas materiais; claro, existem também os momentos edificantes que nos tornam melhores, mas, em geral, e na nossa maioria, adoramos juntar coisas, mesmo que elas não nos sirvam para muita coisa além de enfeitar nossas prateleiras do tempo.

E onde guardá-las? Aí vêm as caixas. Bom, para guardar tanta coisa precisamos de espaço, mas como, neste caso, o espaço é meio virtual, acabamos por acumular caixas mentais, com um monte de coisa desnecessária, arquivos estes que são carregados conosco o tempo inteiro. Pense um pouco e reflita: qual o resultado?

Como em um jogo, acertou quem pensou que excesso de bagagem gera peso extra. Sim, nos tornamos burrinhos de cargas supérfluas, que nos impossibilitam de alcançar horizontes mais altos, porque subir torna-se penoso. Mas então, qual a solução? Como nos livrarmos da nossa bagagem, sem a sensação de jogar fora o que demoramos tanto para construir?

Aqui aparece a necessidade de estudarmos a História. Não digo decorar datas ou escrever nomes em papéis para fazer provas. A História é muito mais útil do que deixa transparecer nosso parco sistema educacional. É preciso olhar atrás, no ontem, nos anos e nos séculos que se foram, para que encontremos as personagens que deixaram um rastro de sorrisos e realizações.

Entenderemos, assim, que as suas caixas não foram jogadas fora, como quem despreza o lixo, mas foram compartilhadas, tal qual se deve fazer com as grandes descobertas e realizações. Qual seria, do contrário, o significado da maturidade, da evolução? São coisas que, como o conhecimento, precisam ser distribuídas, permitidas a todos, para que todos possam subir a montanha; não apenas uns, que ainda cobram pedágio, como acontece hoje.

Pois bem, continuo aqui ouvindo alguém arrumando caixas, como se o mais importante no mundo fosse carregar as glórias conquistadas; âncoras que nos prendem ao passado, impedindo novas incursões ao futuro próspero, novo e, sobretudo, mais leve. Adoro uma frase antiga: "Só sei que nada sei", e devo dizer que, Platão, ao assumir isto, entre outras interpretações se colocou livre da carga de conhecimentos que se acumulava sobre ele. Assumiu sua ignorância, frente à quantidade de coisas a aprender.

Tenho as minhas caixas, deixo algumas delas aqui. Estou compartilhando algumas e outras ainda me pesam. Faz parte da maturação, aprender a lidar com as mágoas, os insucessos e, inclusive, com o passado glorioso que tivemos, mas que já foi. Então é isto; sigamos em frente. Porquê, afinal de contas, como diriam os bêbados: "o mundo gira".

sábado, 1 de março de 2008

Sinta

Sinta as coisas que acontecem ao seu redor, não deixe apenas que elas fiquem lá, como decoração do seu mundo estático. Perceba que cada detalhe tem sua função e que não nos conhecemos por completo até descobrirmos todos os nossos e todos os outros. Entenda o significado de tudo, mesmo que para isto tenha que abdicar dos seus próprios entendimentos momentaneamente, porque julgar que já se sabe tudo é o primeiro passo para a escuridão.

Coisas, ambientes, pessoas, objetos, animais, pessoas, você, eu. Tudo, em partes, por algum motivo, junto vira tudo novamente. Cenários independentes, interdependentes, isoladamente se influenciando de forma constante, com um dinamismo tão impressionante que os olhos não conseguem acompanhar. Segredos guardados, sutilezas imperceptíveis, mas somente àqueles que não se permitem sonhar, vislumbrar coisas fora da realidade, misturando-as ao cotidiano real. Porque, o que é o real?

Crianças já fomos, na nossa infância constante e ininterrupta, que não pára e nos acompanha, até que tenhamos a certeza de que grandes nos tornamos; mas não é agora. Todos grandes, muitos pequenos, quase todos, mas pequenos se fazem grandes, não pelo momento que foi aproveitado, mas pela forma, conteúdo, pela junção dos fatos, das idéias, da aplicação do que somos realmente, mas que os olhos não conseguem ver.

Sinta, porque não há outro meio! Sinta, porque ninguém conseguirá lhe explicar a sensação que não existe através das palavras. Sinta, porque as lágrimas que banham uma emoção podem ter significados infinitos, inundando-nos de maravilhas, desesperos e glórias, mas não as entenderemos nos livros.

O mundo, todo visível, todo oculto, belezas livres, de acesso restrito. Amantes, crianças, ser humano, enfim. Para se ter acesso ao que nos cabe, é preciso permitir-se, então permita-se. Ou não. Sim, fique aí, espere, deixe que o tempo passe. Viverá, sobreviverá, o tempo vai passar, sim, mas não, não terá a certeza, aquela sensação de quem se permite sentir, de que não se passou pelo tempo, fez-se parte dele, em toda a sua essência, em seu todo, misturando-se, colaborando, existindo e coexistindo, construindo-o. Sinta, por fim, porque, afinal, em que você acredita?