quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Olhar interior

Quando criança, eu via determinadas coisas que não vejo mais, porque eu mudei. Hoje vejo algumas coisas e, mais importante, as compreendo, mas antigamente não era assim. Não houve mudança alguma nos meus olhos, que continuam os mesmos, mas o tempo trouxe ao interior uma compreensão diferente das coisas; nem maior, nem menor, apenas distinta do que já foi um dia.

Somos todos assim, com percepções exteriores que não passam de reflexos do que vai por dentro, que se modifica constantemente, pela maturidade acumulada, pelo ânimo temporário, pelos sentimentos que vão no coração. Transmutações do que nos controla, cujas impressões precisam ser controladas, porque nem sempre são compartilhadas pelos outros.

Assim se faz um relacionamento, com adequação mútua das visões internas, para que não haja incompreensão pela forma como são vistos os mesmos quadros, sob o mesmo ângulo, mas com encantamentos distintos. E somos preconceituosos, acima de tudo, porque a nossa forma de ver as coisas é sempre a mais correta. Não, não precisamos estar sempre certos, e é preciso entender isto, porque é o detalhe que nos levará a uma convivência mais pacífica.

Guerras, discussões, verdadeiros apocalípses foram travados porque alguns resolveram empreender jornadas para provar que estavam certos, quando deveriam ter refletido como teria sido visto o seu próprio pensamento pelas outras pessoas. Assim teríamos a tão sonhada paz, cujo alcance ainda se faz distante, por não entendermos que ela engloba as diferenças; todas elas.

É preciso olhar, ver, sentir, e entender que não somos únicos, e que as nossas diversidades podem ser somadas, miscigenadas sem que seja necessário que nos anulemos uns aos outros, para que a convivência seja possível. Criamos todos os dias verdadeiros zumbis de sentimentos, zumbis de visão, pessoas inertes frente às impressões diárias; e ainda reclamamos que as pessoas são insensíveis.

Não sentir o mundo, nada mais é do que cegar o que vai por dentro, achando que o exterior nos basta. Construamos visões distintas que se respeitem, para que possamos acrescentar aos que vão conosco, engradecendo-os e nos tornando grandes. O olhar interior é o reflexo da alma, cuja evolução tão trabalhada pelas várias filosofias do homem precisa ser interna, mas, imperiosamente, precisa ser espelhada para o mundo, não como a opção, mas como uma delas.

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