quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Comércio versus ética

Antigamente dizia-se que a palavra de um homem era o necessário para selar um bom negócio. Além disto, que quando o sujeito não presta, não há contrato que o conserte. Desvios de comportamento aconteceram em todas as épocas, com correções que empregaram maior ou menor violência, mas, devido ao aumento populacional e à grande concorrência hoje existente, tornaram-se mais visíveis e ficou mais fácil de se encontrar exemplos.

Análise de crédito, contratos, propostas comerciais com prazos limitados e tantos outros instrumentos são hoje utilizados para que se garanta o que é dito em uma visita ou reunião, pois a verdade é instrumento de poucos. A exemplo do que foi ilustrado no livro "O caçador de pipas" pelo seu personagem principal, em uma comparação de seu país com os Estados Unidos, não há mais confiança na palavra. Cada vez mais são criados meios para se corrigir as conseqüências de desvios gerados pela deficiência em um setor básico da sociedade: educação.

Não há referência aqui simplesmente à educação formal pois, principalmente em nosso país, esta limita-se a ensinar a cunha do próprio nome. De forma mais abrangente, quando se remete à idéia de educação, é preciso entender que o ser humano é educado desde seu nascimento, por estímulos diversos que não se limitam ao aprendizado desta ou daquela linguagem. Educar, no sentido amplo, implica em tornar o ser humano apto para viver em sociedade de forma completa, harmoniosa e, dentro disto, se incluem as letras como uma de suas características, que nunca pode ser tomada como a única.

O processo educacional, enquanto desenvolvedor de seres sociais, passa, ou deveria passar, por um ensinamento sobre ética e moral, tão em falta atualmente. Com isto, conseguir-se-ía ensinar que empregar determinados meios para se convencer alguém, como vender algo diferente do que se tem, ou mascarar problemas existentes em algo que se passa à frente, dista de um comportamento que garanta o bem coletivo. Há alternativas simples, como conhecer o próprio produto e o da concorrência.

Agregado à falta de noções éticas, o pensamento extremamente individualista do ser humano contemporâneo causa-lhe atitudes que o levam à venda pura e simples, sem a preocupação com os outros envolvidos no processo. Sem a educação satisfatória, passa a entender erroneamente que o sistema capitalista significa apenas o eu ter capital, levando-o a empreender quaisquer esforços na busca do retorno monetário.

O que vemos de forma mais clara no comércio, portanto, e que também abrange desde as relações humanas mais simples até os mais altos escalões do poder público, nada mais é do que uma conseqüência direta de um processo educacional ineficiente, cuja responsabilidade envolve não apenas os responsáveis pela educação formal, como também e, principalmente, pais, amigos e quaisquer pessoas que venham a ter contato com o ser humano durante a formação e desenvolvimento do seu caráter.

Para que consigamos, pois, garantir uma sociedade em que "a palavra de um homem seja o suficiente", como ouvimos de nossos pais sobre épocas anteriores, é preciso que tenhamos em mente nossa responsabilidade solidária por todos. A ética e a moral não devem ser praticadas de forma isolada, sob pena de perecerem ou de se limitarem seus bons efeitos. Se ainda hoje vemos sociedades em que não há a necessidade de garantias, em função do comportamento de seus integrantes, senão por mera imposição burocrática, tenha a certeza de que, nesses bons lugares, impera um sistema educacional de amplitude global, em que os alunos, mais do que simples receptores de conhecimentos, são chamados a praticar e ensinar o tempo todo, deixando de serem alfabetizados de escrita de nome, para se tornarem verdadeiros seres humanos, cientes de seus poderes e de suas responsabilidades.

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