quarta-feira, 19 de setembro de 2007

O nada

Este texto surge em homenagem a um comentário de um pesquisador brasileiro, cuja atividade infelizmente não é tão valorizada em nosso país. Espero que consiga atingir às suas expectativas.

O nada pressupõe a inexistência de qualquer coisa, inclusive de alguém para mensurá-lo, pois não há espaço, o que o mudaria para vazio, nem tão pouco ausência de matéria, o que o aproximaria do conceito de vácuo. Daí a compreensão, ou mesmo incompreensão, do que possa ser, pois não conseguimos materializar esta idéia.

Quando alguém menciona, por exemplo, "não estou pensando em nada", na verdade ocorre um equívoco quanto ao termo, visto que pensa na sua própria inexistência de pensamento. Parece algo meio abstrato mas, se pensarmos um pouco, o que seria o nada senão a completa abstração de tudo?

Devido ao conceito que temos das coisas, notadamente ligado ao materialismo, pode-se, de forma simplista, preconizar a inexistência do nada, pelo simples fato de que sempre haverá algo que o inviabiliza, como as pessoas, a natureza ou, simplesmente, o pensamento. De qualquer forma, pensemos o nada de forma relativa, como efeito das deturpadas concepções e sentimentos humanos, para que tenhamos uma medida das suas conseqüências diretas e indiretas.

Pensando o ser humano como uma unidade independente, única e criativa, podemos deduzir que a ele cabe um papel no todo, de forma que tem a responsabilidade por se tornar útil, provendo seu sustento, modificações no meio e, inclusive, suporte para que outros consigam alcançar também os seus objetivos. Façamos, pois, três considerações: a inexistência do indivíduo, a ausência do meio e o nada interior à pessoa; perceba que em todos os casos teremos um "nada relativo".

Considerar o indivíduo como nada seria equivalente a supor não sua ausência temporária, mas o fato de ele nunca ter existido. Sendo assim, teríamos uma proporção direta das conseqüências, imaginando a inexistência de personalidades marcantes da história, como Freud, Einstein, Ford, dentre outros. Obviamente que suas invenções e contribuições poderiam pertencer a outros mas, será que teriam acontecido na mesma época e com o mesmo conteúdo e ótica originais?

No segundo caso, basta que nos imaginemos flutuando no espaço vazio. Nossa própria existência negaría o nada neste caso, mas, mais uma vez o colocando como algo relativo, teríamos a sensação de vazio, inclusive interior, porque não haveria razão para a nossa existência.

Por último, o nada interior. Este, por mais relativo que seja, nos cerca a todo momento. Fico às vezes imaginando a significação de se nascer, crescer e morrer, imaginando ser esta existência única e sem um propósito maior, além de fugir às tentações do elemento figurativo criado pela mente humana, nomeado inferno. Neste cenário, a simples idéia de que tudo tem um propósito, nos coloca em uma posição de nada, de forma que parece não haver algo que justifique todas as diversas situações que nos cercam.

Esta visão de nada explica as mazelas criadas pelo homem, de posse de sua certeza ignorante de que não há um próximo passo, uma próxima fase, uma seqüência. Suicídios, assassinatos, roubos diversos e tantas outras coisas que têm um impacto social tão forte, causas de um sentimento de nada interior, que nos direciona para o pensamento de que por pior que sejamos, simplesmente não existiremos no próximo ato da peça.

O nada é uma figura de difícil materialização, mas cujo conceito pode ser aplicado de diversas formas. Preocuparmos com evitá-lo pode se tornar um edificante exercício de construção de seu oposto. Lembre-se, quando pensamos cultivar o ócio, não estamos apenas negando a oportunidade que nos foi dada, mas deixando de cumprir nosso papel no sistema em que estamos inseridos. Afinal de contas, como diria o mencionado pesquisador, o ócio precisa ser criativo, para que seja útil.

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