domingo, 12 de agosto de 2007

Liberdade

Vi esta frase em um perfil de orkut: "a liberdade é a prisão que te incomoda menos". Lembro-me de uma cena de uma novela recente sobre a escravatura, em que uma fila de ex-escravos saía das fazendas, sem rumo, sem perspectivas, apenas com a gostosa sensação momentânea de que não tinham mais que viver presos. Analisando a angústia, solidão aparente e uma outra quantidade de mazelas psicológicas do dia a dia, temos vivenciado situações bem semelhantes.

Dentro disto, vivemos saindo de uma prisão para a outra, como os escravos que saíram das prisões das fazendas, para serem encarcerados em um mundo que, à época, não lhes daria muita coisa diferente. Nos apegamos a coisas e valores equivocados, que nos fazem sentir só como um encarcerado, mesmo em meio a uma multidão.

No filme "O homem bicentenário", o robô tenta comprar a sua liberdade por chegar à conclusão de que algo cuja essência tem gerado lutas e guerras mundiais deve valer algo. Muitos lutaram por ela, sem entender que ela não está atrelada à liberdade física de movimentos; tantos outros sem conseguir aproveitá-la nem mesmo temporariamente, como o fizeram os escravos recém libertos, pois estavam ocupados demais em sua busca.

Isto atrapalha, com certeza; nossa busca incessante pelo final das coisas, em que não conseguimos aproveitar o durante. Nossas prisões ainda existirão por um bom tempo, não de castelos e masmorras, mas de sentimentos que nos corroem a contra-gosto. Escolher uma que incomode menos, significa conhecer-se e trilhar um caminho mais livre de atribulações, ao mesmo tempo em que ter a consciência de que este pedaço de ser livre contém a essência da liberdade completa, sendo, só por isto, digno de regozigo.

Já ouvi dizer que a felicidade não é deste mundo e acredito sinceramente que a liberdade também não. Mas já vi pessoas felizes e também as que se sentem livres, apesar de estarem em situações bem adversas. Não vejo o inferno como algo aterrorizante, pois interpreto estar dentro dele, em um lugar onde possuímos satisfações temporárias, desejos inalcançáveis e vontades insaciáveis.

Mas a parte boa existe, em pedaços espalhados. Aprender a juntar esses pedaços ou, quem sabe, torná-los mais próximos, cria uma prisão menos incômoda, aumentando o grau de nossa soltura! Liberdade, ainda que tardia. Ainda que demoremos a entender como alcançá-la, este dia chegará e, até lá, cada um tem sua escolha: sorrir como os escravos, sabendo aproveitar o momento por estarem temporariamente livres, sabendo que as perspectivas existem, mesmo que pequenas, ou chorar por não conseguir tudo.

Há muito a se conseguir; tudo é coisa demais! A liberdade? Sim, ela existe! Mora nos pequenos detalhes que podem ser admirados facilmente, desde que deixemos de nos preocupar demais em sermos grandes, para assumir a beleza de sermos pequenas maravilhas.

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